A avaliação da estrutura utilizando o CSFM é realizada através de duas análises distintas: uma para combinações de ações do estado limite de serviço e outra para combinações de ações do estado limite último. A análise de serviço assume que o comportamento último do elemento é satisfatório e que as condições de cedência do material não serão atingidas para os níveis de carga de serviço. Esta abordagem permite a utilização de modelos constitutivos simplificados (com um ramo linear do diagrama tensão-deformação do betão) para a análise de serviço, de forma a melhorar a estabilidade numérica e a velocidade de cálculo. Por conseguinte, recomenda-se a utilização do fluxo de trabalho apresentado a seguir, no qual a análise do estado limite último é realizada como primeiro passo.
Análise do estado limite último
As diferentes verificações exigidas por normas de dimensionamento específicas são avaliadas com base nos resultados diretos fornecidos pelo modelo. As verificações ULS são realizadas para a resistência do betão, a resistência da armadura e a ancoragem (tensões de aderência ao corte).
Para garantir que um elemento estrutural tem um dimensionamento eficiente, é altamente recomendável realizar uma análise preliminar que tenha em conta os seguintes passos:
- Escolher uma seleção das combinações de ações mais críticas.
- Calcular apenas as combinações de ações do Estado Limite Último (ULS).
- Utilizar uma malha grosseira (aumentando o multiplicador do tamanho de malha padrão em Setup (Fig. 19)).
Um modelo deste tipo será calculado muito rapidamente, permitindo aos projetistas rever eficientemente a pormenorização do elemento estrutural e voltar a executar a análise até que todos os requisitos de verificação sejam cumpridos para as combinações de ações mais críticas. Uma vez cumpridos todos os requisitos de verificação desta análise preliminar, sugere-se que sejam incluídas todas as combinações de ações últimas e que se utilize um tamanho de malha fino (o tamanho de malha recomendado pelo programa). O utilizador pode alterar o tamanho da malha através do multiplicador, que pode atingir valores entre 0,5 e 5 (Fig. 19).
Os resultados básicos e as verificações (tensão, deformação e utilização (isto é, o valor calculado/valor limite da norma), bem como a direção das tensões principais no caso de elementos de betão) são apresentados através de diferentes gráficos, nos quais a compressão é geralmente apresentada a vermelho e a tração a azul. Podem ser destacados os valores mínimos e máximos globais para toda a estrutura, bem como os valores mínimos e máximos para cada parte definida pelo utilizador. Numa aba separada do programa, podem ser apresentados resultados avançados, tais como valores tensoriais, deformações da estrutura e rácios de armadura (efetivo e geométrico) utilizados para calcular o enrijecimento à tração dos varões de armadura. Além disso, podem ser apresentadas as ações e reações para as combinações ou casos de carga selecionados.
Análise do estado limite de serviço
As verificações SLS são realizadas para a limitação de tensões, a abertura de fendas e os limites de deformação. As tensões são verificadas nos elementos de betão e de armadura de acordo com a norma aplicável, de forma semelhante à especificada para o ULS.
A análise de serviço contém certas simplificações dos modelos constitutivos utilizados na análise do estado limite último. Assume-se uma aderência perfeita, ou seja, o comprimento de ancoragem não é verificado no estado de serviço. Além disso, o ramo plástico da curva tensão-deformação do betão à compressão é desprezado, enquanto o ramo elástico é linear e infinito. Estas simplificações melhoram a estabilidade numérica e a velocidade de cálculo, e não reduzem a generalidade da solução, desde que os limites de tensão resultantes do material no estado de serviço estejam claramente abaixo dos seus pontos de cedência (conforme exigido pelas normas). Por conseguinte, os modelos simplificados utilizados para o estado de serviço só são válidos se todos os requisitos de verificação forem cumpridos.
Cálculo da abertura de fendas e Enrijecimento à tração
Cálculo da abertura de fendas
Existem duas formas de calcular a abertura de fendas - fendilhação estabilizada e não estabilizada. De acordo com o rácio geométrico de armadura em cada parte da estrutura, é decidido qual o tipo de modelo de cálculo de fendas que será utilizado (TCM para fendilhação estabilizada e POM para modelo de fendilhação não estabilizada).
Embora o CSFM produza um resultado direto para a maioria das verificações (por exemplo, capacidade do elemento, deformações…), os resultados de abertura de fendas são calculados a partir dos resultados de deformação da armadura fornecidos diretamente pela análise de elementos finitos, seguindo a metodologia descrita na Fig. 20. É considerada uma cinemática de fenda sem escorregamento (abertura pura da fenda) (Fig. 20a), o que é consistente com as principais premissas do modelo. As direções principais das tensões e deformações definem a inclinação das fendas (θr = θs= θe). De acordo com a (Fig. 20b), a abertura de fenda (w) pode ser projetada na direção do varão de armadura (wb), obtendo-se:
onde θb é a inclinação do varão.
Note-se que o programa apresenta valores de θr e θb < π/2. Isto significa que a equação anterior é válida para os casos em que a armadura e a fenda atravessam quadrantes diferentes do sistema de coordenadas cartesianas, como mostrado na Fig. 20, onde a armadura atravessa os quadrantes I e III e a fenda os quadrantes II e IV. Para os casos em que a armadura e a fenda atravessam os mesmos quadrantes, a equação tem de ser modificada da seguinte forma:
A componente wb é calculada de forma consistente com base nos modelos de enrijecimento à tração, integrando as deformações da armadura. Nas regiões com padrões de fendilhação totalmente desenvolvidos, as deformações médias calculadas (em) ao longo dos varões de armadura são diretamente integradas ao longo do espaçamento entre fendas (sr), como indicado na (Fig. 20c). Embora esta abordagem para calcular as direções das fendas não corresponda à posição real das fendas, ela ainda assim fornece valores representativos que conduzem a resultados de abertura de fenda comparáveis aos valores de abertura de fenda exigidos pelas normas, na posição do varão de armadura.
São observadas situações especiais em cantos côncavos da estrutura calculada. Neste caso, o canto predefine a posição de uma única fenda que se comporta de forma não estabilizada antes de se desenvolverem fendas adjacentes adicionais. Estas fendas adicionais desenvolvem-se geralmente após o intervalo de serviço (Mata-Falcón 2015), o que justifica o cálculo das aberturas de fenda nessa região como se fossem não estabilizadas (Fig. 21).

Enrijecimento à tração
A implementação do enrijecimento à tração distingue entre casos de padrões de fendilhação estabilizados e não estabilizados. Em ambos os casos, o betão é considerado totalmente fendilhado antes do carregamento, por defeito.
Fendilhação estabilizada
Em padrões de fendilhação totalmente desenvolvidos, o enrijecimento à tração é introduzido utilizando o Modelo de Tirante em Tração (Tension Chord Model, TCM) (Marti et al. 1998; Alvarez 1998) – Fig. 22a – que demonstrou fornecer excelentes previsões de resposta apesar da sua simplicidade (Burns 2012). O TCM assume uma relação de tensão de aderência-escorregamento em degraus, rígida-perfeitamente plástica, com τb = τb0 =2 fctm para σs ≤ fy e τb =τb1 = fctm para σs > fy. Tratando cada varão de armadura como um tirante em tração – Fig. 22b e Fig. 22a – a distribuição da tensão de aderência, das tensões no aço e no betão e, portanto, a distribuição de deformações entre duas fendas pode ser determinada para qualquer valor dado das tensões (ou deformações) máximas do aço nas fendas.
Para sr = sr0, uma nova fenda pode ou não formar-se, porque no centro entre duas fendas σc1 = fct. Consequentemente, o espaçamento entre fendas pode variar por um fator de dois, ou seja, sr = λsr0, com l = 0.5…1.0. Assumindo um determinado valor para λ, a deformação média do tirante (εm) pode ser expressa em função das tensões máximas na armadura (isto é, tensões nas fendas, σsr). Para o diagrama tensão-deformação bilinear idealizado para os varões de armadura considerado por defeito no CSFM, são obtidas as seguintes expressões analíticas fechadas (Marti et al. 1998):
onde:
Esh o módulo de endurecimento do aço Esh = (ft – fy)/(εu – fy /Es) ,
Es módulo de elasticidade da armadura,
Ø diâmetro do varão de armadura,
sr espaçamento entre fendas,
σsr tensões na armadura nas fendas,
σs tensões reais na armadura,
fy tensão de cedência da armadura.
A implementação do CSFM no Idea StatiCa Detail considera, por defeito, o espaçamento médio entre fendas ao realizar a análise de campo de tensões assistida por computador. O espaçamento médio entre fendas é considerado como 2/3 do espaçamento máximo entre fendas (λ = 0.67), o que segue as recomendações feitas com base em ensaios de flexão e tração (Broms 1965; Beeby 1979; Meier 1983). Deve notar-se que os cálculos de abertura de fenda consideram um espaçamento máximo entre fendas (λ = 1.0), de modo a obter valores conservadores.
A aplicação do TCM depende do rácio de armadura e, por conseguinte, a atribuição de uma área de betão apropriada, atuando em tração entre as fendas, a cada varão de armadura é crucial. Foi desenvolvido um procedimento numérico automático para definir o rácio de armadura efetivo correspondente (ρeff = As/Ac,eff) para qualquer configuração, incluindo armadura inclinada (Fig. 23).

Fendilhação não estabilizada
As fendas existentes em regiões com rácios geométricos de armadura inferiores a ρcr, ou seja, a quantidade mínima de armadura para a qual a armadura é capaz de suportar a carga de fendilhação sem ceder, são geradas por ações não mecânicas (por exemplo, retração) ou pela propagação de fendas controladas por outra armadura. O valor desta armadura mínima é obtido da seguinte forma:
onde:
fy tensão de cedência da armadura,
fct resistência à tração do betão,
n coeficiente de homogeneização, n = Es / Ec .
Para betão e aço de armadura convencionais, ρcr corresponde a aproximadamente 0,6%.
Para estribos com rácios de armadura abaixo de ρcr, a fendilhação é considerada não estabilizada e o enrijecimento à tração é implementado através do Modelo de Arrancamento (Pull-Out Model, POM) descrito na Fig. 22b. Este modelo analisa o comportamento de uma única fenda, considerando que não existe interação mecânica entre fendas separadas, desprezando a deformabilidade do betão à tração e assumindo a mesma relação de tensão de aderência-escorregamento em degraus, rígida-perfeitamente plástica, utilizada pelo TCM. Isto permite obter a distribuição de deformação da armadura (εs) na vizinhança da fenda para qualquer tensão máxima do aço na fenda (σsr) diretamente por equilíbrio. Dado que o espaçamento entre fendas é desconhecido para um padrão de fendilhação não totalmente desenvolvido, a deformação média (εm) é calculada, para qualquer nível de carga, sobre a distância entre pontos com escorregamento nulo quando o varão de armadura atinge a sua resistência à tração (ft) na fenda (lε,avg na Fig. 22b), obtendo-se as seguintes relações:
Os modelos propostos permitem calcular o comportamento da armadura aderente, que é finalmente considerado na análise. Este comportamento (incluindo o enrijecimento à tração) para o aço de armadura europeu mais comum (B500B, com ft / fy = 1,08 e εu = 5%) está ilustrado na Fig. 22c-d.
